quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mais do mesmo

Eu já mencionei o meu atual emprego. E agora ele nem me incomoda mais como costumava me incomodar. Antigamente, eu me indignava com tudo o que acontecia nele. Eu achava que as únicas coisas pelas quais valia a pena estar ali eram os fatos de que eu tinha colegas maravilhosos e de que não tinha de lidar diretamente com os alunos, além de poder cumprir com meus compromissos financeiros. Isso não mudou, mas toda a parte negativa deixou de ser uma muralha que me impedia a vista de paisagens. Hoje eu me sinto como uma enfermeira cuidando de um doente terminal.
Quando cheguei aqui, isso era algo pequeno, ocupava apenas três ou quatro andares de um prédio de 11 andares. Já faz quase 6 anos. Nos anos seguintes, a coisa cresceu. Dos 11 andares do prédio, apenas dois não eram "nossos". Só de andares destinados aos professores, para que elaborássemos nossas aulas e materiais de trabalho, havia quatro. Chegou ao ponto de que não era possível encontrar computadores e cadeiras suficientes nesses quatro andares para que pudéssemos trabalhar. De segunda a sexta, manhã, tarde ou noite, a qualquer momento em que se chegasse aos andares, estavam lotados.
Começamos com três estúdios de transmissão via satélite. Logo, três virou seis, que em seguida chegou a nove. Setores e mais setores eram criados para coordenar tamanho empreendimento educacional. Houve um momento em que nem os 9 andares eram suficientes, salas e mais salas foram alugadas em outros prédios do mesmo bairro. Era uma coisa "mega". E foi tão rápido e tão grande, ou tão grande e tão rápido, que começou a ruir.
Hoje eu não sei onde o fim começou. Talvez, ele estivesse esperando, desde o começo, como um organismo vivo, que nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. Só que muito depressa , levando muitas outras vidas para caminhos diferentes.
Hoje não há mais nenhuma sala fora do prédio. Dos nove andares de antes, só tenho certeza de que restam cinco. A qualquer momento em que se chegue em um dos dois andares reservados aos professores, é possível encontrar computadores e cadeiras disponíveis. Raramente fico na sala dos professores, como costumo chamar o andar em que trabalho, com mais de cinco colegas, professores de diversos cursos. Parece que tudo está mesmo morrendo. Os meus colegas mais queridos não estão mais aqui. Hoje estão trabalhando em lugares muito melhores. Com certeza estão mais felizes do que antes. Eu estou aqui, esperando o fim, tal qual a enfermeira que assiste um moribundo. O muro que antes me impedia de ver o mundo adiante, agora, é uma cerquinha a ser derrubada com um único pontapé. Diante dela, eu espero.