terça-feira, 24 de novembro de 2020
2013 a 2015
Eu tinha uma regularidade de postagens aqui até 2012, quando fui demitida da Instituição 1 em que trabalhava. Se o leitor/confidente quiser conhecer, basta voltar pra o início de tudo para perceber o nível hard da depressão, agora já diagnosticada.
Eu era muito deprimida e muito relutante em aceitar, em buscar ajuda. Fiz terapia por várias vezes e por muitos anos, mas sempre interrompendo ao primeiro sinal de melhora no ânimo. Grande erro. Então, já que me propus a contar como foi a jornada de lá para cá, que resultou numa melhora considerável do quadro, preciso voltar àquele momento que foi um grande gatilho, me levando pra uma das quedas mais duras no meu processo, que é depressão reativa-atípica. Se quiser entender o tipo de depressão, dá uma olhada no post anterior, em que eu explico como é.
Era dezembro de 2012 quando fui demitida da Instituição 1. Professor aqui no Brasil, via de regra, costuma ser demitido em dezembro (fim do ano letivo) ou julho (fim do 1º semestre letivo). Comigo, as duas vezes, foi em dezembro. E em 2012, foi a primeira vez que fui demitida na vida. Pra quem tem um padrão recorrente de reação à rejeição, esse foi O GATILHO, porque eu me sentia literalmente jogada fora no lixo. A instituição em questão tinha por praxe não pagar certos direitos trabalhistas, o que me impediu de acessar o seguro desemprego. Tive de entrar na justiça após findado o prazo de pagamento da rescisão contratual, o que não aconteceu também. Enfim. Comecei 2013 desempregada, sem nenhuma perspectiva de fonte de renda, e mais uma dor de cabeça, que era todo o trâmite legal de procurar um advogado, acertar todas as coisas para poder receber o que me era de direito. Eu até tentei mover algumas esperanças, falando com conhecidas e ex-colegas sobre "estar na pista" profissional novamente. E quem é professor sabe que, se você não for contratado até início de fevereiro, dificilmente você conseguirá alguma coisa até julho. Graças à Deusa, meu marido sempre foi muito acolhedor e compreensivo. Tivemos de cortar custos, inclusive de serviços prestados. Assumi completamente os trabalhos domésticos e o cuidado com meus filhos. Beeeeemmmm dona de casa: outro gatilho. E pra não enlouquecer, cursei a última disciplina que faltava em Gastronomia, para poder me formar.
Uma das pessoas com quem conversei sobre estar disponível para dar aulas foi a coordenadora do curso de Gastronomia em que eu estudava. E, a despeito de tudo que aconteceu depois, tenho muita gratidão por ela. Em maio daquele ano, a professora de Análise Textual do curso de Gastronomia foi nomeada numa instituição pública na qual havia sido aprovada em concurso, e por isso deixou a disciplina e a Instituição às pressas para tomar posse. Imediatamente, a coordenadora pensou em mim, que já era formada em Letras e tinha Mestrado. Assim, em maio de 2013, eu passei a lecionar na Instituição 2. A carga horária era pequena, e o dinheiro só chegou depois que o semestre terminou, por conta de toda uma questão de sistema, etc e tal. Mas foi muito importante poder sair de casa para dar aula, ainda que fosse apenas por 1 hora e 40 minutos na semana. Eu sentia que podia! Eu tinha um sentimento bom por estar trabalhando. Aí eu preciso explicar o gatilho de ser dona de casa: eu nunca quis, nunca gostei. Sempre desejei ter família, mas nunca desejei ser a dona de casa. E eu cresci vendo as mulheres da minha família sendo diminuídas e machucadas, justamente nesse lugar de submissão e servilidade. Eu odiava (e ainda odeio) a ideia de repetir o padrão de minha bisavó ou minha avó. Queria viver numa casa onde todos fazem as tarefas, porque a casa é de todos. Mas enquanto eu estava desempregada, eu tinha de aceitar que as outras pessoas da casa tinham menos disponibilidade para as tarefas domésticas, porque estavam trabalhando ou estudando. E eu? Eu estava desempregada, tinha tempo suficiente disponível para cozinhar, lavar, passar, limpar a casa, etc. E isso me acabava, porque eu estava desempregada, sim, mas não por minha escolha. Então quando eu comecei a trabalhar fora novamente, eu podia dizer: eu também trabalho. Eu também tenho de preparar aulas, corrigir atividades, estudar...
Eu terminei a faculdade de gastronomia em 2013.1. E no semestre seguinte, me foi dada a oportunidade de assumir duas turmas de Técnicas Básicas de Cozinha. Foi aí que me tornei professora de Gastronomia. E não foi fácil, como se poderia pensar. Eu me sentia extremamente insegura, porque havia acabado de me formar, porque nunca tinha tido experiência em restaurantes, salvo no Restaurante-escola do curso profissionalizante que fiz. O medo que os alunos me confrontassem e percebessem que eu estava tão "verde" naquele papel era tamanho, que o fato de ter uma fonte de renda novamente não era suficiente para que eu me sentisse em paz. Foi em setembro de 2013 que procurei meu plano de saúde para pedir sessões de terapia. De lá pra cá, não parei mais. E se não tivesse sido assim, eu teria surtado legal em 2014.
Foi ano de Copa do Mundo. E de eleição para presidente, governadores e todos aquele povo do Legislativo. E, lembra?, a Copa foi aqui no Brasil. Fiasco! Não o 7x1 da linda Alemanha sobre o Brasil, mas todo o despreparo do país para isso. E não! Não foi por causa da Copa do Mundo que meu ano de 2014 foi um pouco turbululento. Mas a Copa teve muita influência em tudo o que aconteceu. Por causa da iminência da Copa, de todos os gastos públicos com as preparações para o evento e da eleição presidencial, muitas categorias profissionais começaram a se manifestar. Aqui em Salvador teve paralização de tudo que é tipo: rodoviários, polícia, etc e tal! Isso implicava em quê? Aulas suspensas. Depois, quando a Copa começou, aconteceram jogos aqui na cidade, no Estádio da Fonte Nova. O que isso causava: paralização de aulas. Ah, e tinha jogo do Brasil, claro! Suspendam as aulas para o povo assistir aos jogos. Resumo da ópera: o semestre estava acabando, eu tinha cinco turmas, dentre as quais duas de Cozinha na Hotelaria, disciplina que eu peguei pela primeira vez. Calendário apertado e muitas aulas ainda por dar, devido a tantas suspensões. Então vem a 1ª grande lição do ano de 2014: Sempre dê a carga horária completa da disciplina, mesmo que você tenha de dar aula num domingo ou num feriado. Eu nunca tinha vivenciado uma situação dessas. Antes, trabalhava numa IES em EAD. Tudo milimetricamente organizado. Não havia suspensão de aulas, por nenhum motivo que fosse. Não estou me justificando. Apenas explicando o porquê de eu ter cometido os erros que cometi. A cada aula suspensa pela faculdade ou pela prefeitura (sim, o prefeito decretava suspensão de atividades por causa da porcaria da Copa, pra melhorar o trânsito na cidade e não fazer feio para os turistas), eu pensava: "Não é culpa minha! Não sou eu quem está escolhendo não dar aula! Então, não tenho nada a ver com isso." Mas como falei antes, o calendário ficou apertado, e havia conteúdos práticos para serem trabalhados, em especial na turma de Hotelaria do turno da noite. Eu dividia a disciplina com o professor que antes era responsável por ela sozinho. Então eu fui perguntar a ele como faríamos para dar aqueles conteúdos. Ele me falou, como que em segredo, que não ia repor aula nenhuma, apenas que juntaria duas aulas em uma única. E apenas deixaríamos de dar as duas últimas aulas, pois seus respectivos conteúdos seriam vistos futuramente em outra disciplina. 2ª grande lição de 2014: Não confie num colega de trabalho que te faz uma proposta indecente.
Eu sabia que estava errado não dar as duas últimas aulas. Faltavam apenas 3 semanas para o fim do semestre,e havia uma defasagem de 6 aulas práticas. As quatro primeiras foram trabalhadas em duas. Cheguei a propor aos alunos algumas possibilidades de reposição, mas a turma se recusou. Compreendeu que não seriam prejudicados em não ter os dois últimos conteúdos, e disseram que não viam nenhum problema em não ter uma reposição das duas últimas. 3ª grande lição de 2014: Por mais de saco cheio que você esteja da Copa, da cidade, do trabalho e do mundo, nunca, NUNCA, deixe que a opinião dos seus alunos interfira no seu planejamento, se for o certo a fazer. Depois de ouvir os alunos, fui pra casa feliz, achando que o semestre estava acabado e que eu, finalmente, poderia descansar de uma experiência tão intensa que foi ter 5 turmas de disciplinas práticas em Gastronomia. Alguns dias depois, recebo uma ligação da coordenadora, me chamando para conversar. Cheguei para dar aquela que, supostamente, seria minha última aula na turma noturna de Hotelaria, e recebi a bordoada pelo meio da cara: a turma não queria reposição, mas um único aluno sim. Ele estava errado? Não. O problemas é que ele não falou comigo. Nem mesmo falou com a coordenadora. Ele passou por cima de todo mundo e mandou um e-mail para a ouvidoria da instituição dizendo que eu não queria dar aula. Eu me lembro daquele momento como se estivesse em um filme, em slow motion: a coordenadora gritando comigo na frente de todos, dizendo que eu tinha que dar as aulas de qualquer jeito; o colega - aquele que me falou que não ia repor aula nenhuma - fingindo que a ideia de não repor as aulas era minha; outros colegas solidários a mim, mas em silêncio, sem poder me ajudar. Eu senti como se meu coração tivesse sido arrancado do meu peito. Até hoje é um gatilho me lembrar disso. De todos os alunos que já tentaram me prejudicar, esse e os últimos (de 2018) são os que ainda não consegui perdoar. Resultado da cena: tive de usar o dia que seria da prova final para fazer duas aulas práticas em uma com apenas três alunos numa faculdade deserta.
Depois disso, pensei em desistir de ser professora. A cada semestre, queria sair dali de alguma forma mesmo que alguns alunos, na grande maioria, fossem legais e os colegas, incríveis (Exceto aquele que fez a proposta indescente e depois fingiu demência. Sobre ele, há muuuuito o que falar ainda. Até hoje tenho pesadelos).
Em 2015, eu já me sentia mais segura. Mas tinha um pequeno problema: eu sempre detestei mexer em carnes, ou seja, bicho morto. Não é à toa que estou me tornando vegetariana. No 1º semestre de 2015, eu tive uma turma de Preparo Prévio. Basicamente é uma disciplina que ensina como tratar animais e legumes, verduras. Tem a ver com cortes e técnicas de desossa, etc e tal. E eu não gosto, nem nunca vou gostar, de pegar em bicho morto. Pela compaixão pelo animal que morreu, pela textura fria e escorregadia da matéria, pelo cheiro...Não foi isso que me levou para Gastronomia. Eu escolhi essa área porque queria ser confeiteira. Entende a diferença? Chocolate, pão, bolos, macarons, tartes... E não, frango, codorna, peixe. Gente! Eviscerar peixe é a coisa mais nojenta que já fui obrigada a fazer na vida. Bem, eu sou uma pessoa que dificilmente vai esconder a expressão de desgosto, nojo, raiva ou qualquer outro sentimento/sensação. E numa aula dessas de Preparo prévio, os alunos descobriram meu nojo. E foram reclamar com a coordenadora. Resultado: mais bronca. Mais assédio moral, porque as broncas eram numa sala onde todo mundo podia ouvir. E eu tinha de ir, humilhada, com o rabo entre as pernas, para a sala de aula, fazer de conta que eu não me importava em estar pegando naqueles bichos mortos. Na última aula para essa turma, eu disse que apesar do meu nojo, ninguém deixou de aprender nada, porque eu fiz o meu trabalho. E disse ainda que a faculdade me pagava para isso, e não para gostar de tirar tripa de peixe. Comprei briga com aquele coleguinha - que agora havia se tornado supervisor - e com a coordenadora. Aquele lugar já não era mais um local de exercício de ensino-aprendizado com diálogo. Era como se eu estivesse jogando batalha naval. Eu não sabia qual aluno estava pronto para usar minhas palavras contra mim. Por mais que minha conduta fosse correta, eu estava sempre na defensiva, porque se os alunos quisessem, eles podiam tudo. A instituição é particular. Lá vale a lei de que "O cliente sempre tem razão".
Dizem que você não pode falar mal de quem te deu emprego. Não estou falando mal. Estou mostrando a jornada que passei. Sou grata por tudo que aprendi lá. Sou grata por ter sido possível pagar minhas contas. E tudo o que vivenciei me possibilitou me conhecer mais. Se não fosse a terapia, eu nunca teria compreendido minha dificuldade em estar no papel de dona de casa. Também foi graças a isso que pude entender de onde vinha minha dificuldade em responder às broncas e me defender. Eu mantive minha terapia. Mas nessa época, também foi necessário entrar com medicação. Trabalhar era uma bênção, mas também era um suplício, pois era como entrar num campo de batalha. Os alunos não eram meus parceiros, os quais eu estaria ajudando a contruir uma jornada de conhecimento. Eram possíveis inimigos. Minha coordenadora e meu supervisor eram juízes. Quase esquema "vigiar e punir" de Foucault. Quem consegue ter qualidade de vida num trabalho assim? A partir daí, fiz todos os concursos que estavam ao meu alcance, na esperança de poder sair daquele lugar de cabeça erguida. Mas muita água rolou sob essa ponte. Esse foi só o começo.
Hoje estou mais forte. Já consigo me defender. Entendo os gatilhos, e se puder evitá-los, eu faço. A terapia me ajudou. E digo a todos que quiserem ouvir: pode ajudar quem quiser.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2020
Minha jornada de auto-cura
Não, eu ainda não estou curada da depressão. Talvez a cura não chegue nesta existência. E está tudo bem assim.
Há momentos de muita força, euforia e paz. E ainda há momentos de inverno de alma, envolto na bruma da insatisfação e da melancolia.
Ainda faz parte de mim um padrão muito forte de impulso para a fuga. Isso foi uma das muitas coisas que descobri com a terapia. É o padrão de crer que não consigo resolver um problema ou suportar uma situação. Sempre que algo ruim ocorre, meu primeiro desejo é me recusar a encará-lo, normalmente desejando abandonar tudo aquilo ali. Agora que sei disso, é mais fácil perguntar o que eu preciso aprender com o que está acontecendo.
Terapia funciona. E eu resolvi contar um pouquinho disso neste espaço. Talvez um leitor precise ir para as primeiras postagens para saber como eu estava há 10 anos, para depois enxergar que algo mudou.
O que mudou foi a parte de mim que não conseguia se reconhecer. No mais, a vida continua a mesma. Mesmo marido, mesmos filhos, mesma profissão.
Eu vou contar, ano a ano, como foi que eu mudei ao começar a me encontrar.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
Tudo, absolutamente tudo, novo pela 1ª vez!
Passei cinco anos sem escrever. Não que não tivesse nada para dizer, mas porque não queria ficar andando em círculos, repetindo a mesma ladainha que já está registrada aqui desde sempre. Continuei minha terapia, passei a tomar remédio, sim. E mergulhei sem medo em mim mesma, para além da dor de me sentir eternamente deslocada e desencontrada nesta vida. Mas de lá para cá, muitas coisas aconteceram. E a cada pequeno degrauzinho que consegui subir, aprendi um pouco mais sobre mim mesma. Acolhi algumas das minhas sombras. Outras ainda estão escondidas, para serem conhecidas por mim ao longo da jornada. Também reconheci e aceitei a parte de luz em mim que consegui ver. A jornada continua. E eu vou tentar contar um pouquinho sobre como tem sido.
Da última vez que eu escrevi, eu estava passando por mais uma fase depressiva. Depois de tanto tempo, finalmente o diagnóstico ficou claro: depressão atípica-reativa. De uma forma bem resumida, é como se fosse o seguinte: quando algo bom acontece, eu fico feliz, mas não é suficiente para sustentar a alegria; e quando algo ruim acontece, me derruba de uma forma que eu não consigo me levantar sozinha, durando muito mais do que as alegrias dos eventos pontuais. Desde 2017, estou medicada, e muita coisa melhorou. Então eu aproveito para dizer: Não tenha medo ou vergonha de precisar tomar remédio para depressão, ansiedade, síndrome de pânico ou qualquer que seja a condição que precise ser medicada. Nenhum hipertenso ou diabético tem vergonha de tomar remédio. Por que a pessoa que está sofrendo com uma doença mental deveria ter?
Depois que eu deixei Letras de vez, trabalhei numa instituição de ensino superior (IES), no curso de Gastronomia. Fiz concurso para a UFBA e perdi. Foi um baque na autoestima, e caí em outra crise depressiva. Foi justamente isso que me levou à psiquiatra e às medicações. No entanto, em 2017, fiz concurso para o IFBAIANO, passei e agora trabalho lá! O tempo que trabalhei na IES, tive momentos legais, porém muitos momentos desafiadores. Não vou falar do que era ruim, porque não quero dar lugar a isso. Vou falar do que foi bom: eu descobri algo em mim, que sempre esteve ali, latente, mas que eu não identificava. Eu descobri que eu sou o tipo de pessoa que gosta de cuidar. Mesmo sendo professora, eu me sentia feliz em cuidar dos alunos: ouvir, acolher, orientar, fazer algo que pudesse melhorar a vida daquela pessoa, ainda que não fosse no sentido de ajudar a ampliar conhecimentos. Foi nesse insight que eu descobri que tinha de me tornar terapeuta.
Em 2018, comecei a fazer cursos de terapias diversas: Introdução à aromaterapia, Barras de Access, Reiki, Benzimento, ThetaHealing, Tarot...Quando fui demitida, em dezembro de 2018, ao invés de me sentir deprimida, como aconteceu na primeira vez, eu comemorei, porque senti que era o pontapé que faltava para que eu me dedicasse a essa nova profissão. Eu estava com a relação com a gastronomia muito desgastada. A cozinha não era mais prazerosa porque só me lembrava de supervisores traiçoeiros e alunos eternamente insatisfeitos. É claro que, ainda comemorando, eu me sentia tendo sido jogada fora. Mas havia perspectiva. Havia a possibilidade de recomeço imediato. E foi aí que a minha jornada rumo a uma nova profissão (mais uma), se tornou uma jornada de auto-cura.
O ano de 2019 foi um ano de aprendizados sobre empreendedorismo, Ikigai e autoconhecimento. É claro que não conseguia pagar minhas contas. Que terapeuta iniciante consegue uma agenda cheia de cliente da noite para o dia? E nisso, muitos altos e baixos. Mas eu me reconheci bruxa, assumi todo o meu lado esotérico e espiritualista. Desde 2016, passei a estudar mais sobre espiritualidade. Em 2018, iingressei num curso bem sério sobre espiritualidade. E comecei a ter uma visão mais leve das dificuldades da vida. Eu já estava exausta de lutar contra as circunstâncias que se apresentavam para mim. Não conseguia clientes, nem mesmo para comprar os japamalas que eu fazia. Resolvi correr atrás do concurso que fiz e passei. Faltava pouco tempo para o prazo do concurso vencer. Meu marido me empurrou até a exaustão para que eu fizesse ligações e visitas, a fim de movimentar o processo. Graças a ele, meu marido, que hoje estou numa instituição federal de ensino. No fim de dezembro de 2019, minha nomeação saiu no Diário Oficial. Faltavam apenas 5 dias para o prazo do concurso vencer. Eu já tinha até mesmo uma advogada a postos, para o caso de precisar entrar na justiça pela vaga. Ainda bem que não precisei fazê-lo.
E aí o ano de 2020 começou. Você já sabe sobre 2020. Eu não preciso falar de todos os absurdos desse ano estranho. Mas eu quero muito falar sobre as minhas bênçãos.
Hoje eu sei que não posso mais fugir de ser professora. Não somente porque estou depois da Reforma da Previdência, muito provavelmente eu não vá conseguir me aposentar nunca, mas porque está no meu cerne. Faz parte de mim ensinar coisas. Depois que eu me tornei terapeuta, eu passei a dar dicas sobre como aliviar cólicas com aromaterapia, ou como ritualizar um banho, ou como tal erva é bom para insônia. Eu não consigo deixar de ensinar. É um karma, e um dom: tudo o que eu aprendo, eu ensino. Se estou numa consulta médica, e me aparece a famigerada pergunta "Professora de quê?", logo a médica está me falando de coisas que ela ama comer e que gostaria de aprender, e, se eu souber, na mesma hora solto uma dica ou um macete. É mais forte do que eu!
Então eu resolvi assumir que sou uma professora-terapeuta, que vai fazer o possível para ajudar os alunos, seja com conteúdo informativo das disciplinas que eu ministrar, seja com minhas dicas de bruxa. Resolvi que vou encontrar uma forma de juntar tudo no mesmo balaio, porque eu não posso me separar de mim mesma. Eu sou professora, por mais que eu tente fugir disso, e sou uma terapeuta, benzedeira, que prepara chás, banhos e joga cartas. E sabe de uma coisa? EU AMO SER TUDO ISSO.
Então, tudo mudou, pela primeira vez, eu acho. Porque eu já não sinto que os problemas podem ser resolvidos fora de mim. E como boa geminiana, fico me questionando se eu já senti tudo isso antes, mas me parece que não. Nada mudou por fora. Eu mudei o máximo que pude por dentro. E ainda tem muita faxina e reforma pela frente. Só que dessa vez, eu estou em paz.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Nada novo de novo.
Quase dois anos se passaram desde a última postagem. Muita coisa mudou contextualmente. Eu, porém, dei alguns passos à frente e todos eles e mais um para trás. Estou, de novo, diante de um concurso pra fazer (me cagando de medo da rejeição ), sem coragem de mudar.
De dois anos para cá, voltei a fazer terapia. Eu estava em meio a uma depressão moderada. Nada mudou. Talvez eu tenha de ceder e tomar remédios.
Hoje estou com muita raiva de muita gente, inclusive de mim mesma.
Em suma, estou descobrindo muita coisa sobre mim mesma na terapia. Mas nada mudou....
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Não quero ser....
Ok, eu não quero ser a pessoa que reclama de tudo o tempo todo. Mas esse é o único lugar onde posso fazer isso em paz.
Eu fiz uma prova de concurso no domingo. Não acho que eu seja a pessoa que tem perfil para a vaga, mas me agarrei à possibilidade porque o barco está afundando por aqui. E me pareceu tão tranquila aquela prova. Eu me senti confiante, segura. Em nenhum momento, achei que meus concorrentes fossem menores do que eu, muito menos que eles mereçam menos do que eu a vaga disputada.
Ontem o gabarito foi divulgado, e eu conferi, pasmada, a quantidade de questões que errei. Espero que isso não pareça arrogante da minha parte, mas a verdade é que a prova não me pareceu difícil. Ter errado tanto está me fazendo sentir como se eu fosse incapaz, burra!
Será que todo mundo se sente assim? Será que todos os meus colegas que também erraram tanto quanto eu estão se sentindo incompetentes? Bem, eu estou. E mais: tenho a sensação de que nem quero ir lá fazer a segunda etapa do concurso.
Não quero ser a pessoa que desiste antes do fim, mas estou me sentindo exausta e sem nenhuma vontade de continuar.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Festa...
Supostamente, uma festa deveria ser motivo de alegria, de animação. A festa não é necessariamente minha, mas eu acho que quando alguém é convidado para uma, isso não deveria ser um peso.
Amanhã há um casamento. Nada contra os noivos, mas eu não gostaria de ir. Simplesmente porque estou com vontade de não ir. Ou melhor, não estou com vontade de ir. É diferente. E é muito simples de explicar minha não-vontade. Esse tipo de festa é como um desfile no tapete vermelho do Oscar: as pessoas estão lá não para celebrarem o acontecimento, mas para se exibirem. Se você é convidado para um casório, e junto com o convite vem uma série de exigências sobre como você deve se vestir, a alegria da celebração vai para a puta que o pariu, porque o que resta é a chatice de ter que fazer cabelo, unhas, maquiagem (é uma delícia fazer tudo isso quando é para o seu prazer, e não para pousar num álbum de casamento), alugar roupa (ou conseguir emprestado, ou comprar). "Felizmente" nesses últimos 14 anos eu engordei o suficiente para uma roupa de gala de minha sogra caber em mim. Minha sogra sempre tem algum evento de gala para ir. Eu não.
Aliás, meus amigos não se casam. Eles passam a morar junto com suas(seus) companheiras(os) e depois atualizam o perfil no Facebook. Também não sou muito convidada para festas de formaturas e bailes de debutantes. Por isso, não tenho vestido de gala. Se tivesse, seria preto, mas a mãe da noiva não quer que ninguém use preto na festa. (Já viu que onda?)
Bem, e qual a razão de eu simplesmente não ir? "Família, família...." Não ir é comprar uma briga, uma ofensa. A família nem é minha! É do marido, mas eu não vou ser a responsável por uma "ofensa" tão grave. E aí, o jeito é me submeter. Amanhã, a esta hora, estarei com a cara cheia de "reboco", coque, roupinha de gala, sorriso falso. Não farei unha, não irei ao salão... Malmente, passarei uma base nas unhas para disfarçar... nos olhos, vou tacar um par de cílios postiços tão chamativos que ninguém vai reparar nas minhas unhas. Quer dizer, ninguém exceto a mãe da noiva, que adora ter repertório para falar mal dos outros depois que a festa passar.
Certa feita, quando houve o casamento do outro filho dela, uma agregada foi a madrinha. A coitada havia trabalhado o dia inteiro e não pôde ir a salão fazer essas coisas todas. Foi do jeito dela, estava linda, do jeito dela, naturalmente como ela é. Tempos depois, numa rodinha de churrasco, essa moça foi bombardeada de acusações, porque não havia feito escova no cabelo, porque o vestido estava assim e assado, etc e tal. Nem preciso dizer que a moça-alvo do falatório nem estava lá para se defender...
Eu queria "cagar e andar" pra tudo isso. Ir de calça jeans e all star! Mas isso seria tão "ofensivo" quanto não ir à festa.
P.S.: ainda bem que não fui convidada para ser madrinha desse casamento...
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Bola de neve
Atualização de status: ainda deprimida por conta da demissão. Estou procurando coisas novas, mas nada apareceu.
É claro que já estando deprimida, o meu humor não está lá dos melhores. E eu imagino que não deve estar sendo fácil conviver comigo assim. Mas, por outro lado, é o que se espera dos parentes, da família: marido, filhos, pais e irmãos. A gente imagina que esse vai ser o grupo que vai dar apoio incondicional.
Fragilizada assim, ficou mais fácil me ofender com pequenas atitudes em casa, como a comida rejeitada, ou o descuido com o lugar que acabou de ser limpo. Devo soar como uma "chata de galocha". Mas um pouco de compreensão não ia fazer mal, né?
Ao invés disso, quase estou sem falar com as pessoas da casa, maiores de 13 anos. Só tenho me comunicado com meu gurizinho, porque ele não entenderia, embora perceba, o que está acontecendo.
Estou rezando. Estou pedindo um milagre: que as pessoas que eu amo me entendam. Que me perdoem se eu me excedi nas reações. Que assumam que também erraram. Que tudo fique bem.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
... Como havia sido previsto
Já vinha sendo anunciado o fim. Eu já sabia que iria acontecer. Mas ainda assim, não é um sentimento fácil de lidar.
Será que todos sentem da mesma forma que tenho sentido? A sensação inicial foi a de que eu fui jogada fora, depois de ter sido usada ao extremo, sugada de toda minha energia, criatividade, saber e competência. Ser demitida não foi nem um pouco aliviador, como eu esperava. Eu achei que me sentiria libertada, e no entanto minha alma parece estar prisioneira de uma angústia, da eterna incerteza sobre o futuro.
Achei que depois que eu saísse de lá, todas as nuvens que me impediam de ver iriam se dissipar. Porém, parece agora que elas estão mais densas.
Eu não vou tentar fingir que tá tudo bem. Não está. Eu estou muito triste, com medo do futuro. Medo de não receber na justiça por todos os direitos assegurados de uma demitida. Medo de que não consiga mais voltar a trabalhar, porque parece que tudo que eu sabia, que tudo o que eu podia fazer ficou preso lá naquele lugar. O amanhã é tão nublado, tão difícil de enxergar... E me falta a fé de que todo mundo fala. Como se ganha fé? Como se passa a acreditar que tudo vai ficar bem? Eu queria, ao menos, alguma garantia...
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Mais alguns tons...
Bem, terminei os dois primeiros livros da trilogia 50 tons de Cinza. E posso afirmar, com muita convicção, que eu estou morta de cansaço pela Anastácia, protagonista dos romances... É tanto sexo (duas ou três vezes por dia, quase todo santo dia!!!!!) que eu fiquei exausta por ela.
Como eu mencionei no post anterior, o vocabulário é tão fraquinho, que começou a ficar chato "reler" todas as narrativas porno-eróticas (dá uma sensação de que estou lendo de novo a mesma transa...).
Mas o que me trouxe aqui para falar sobre o livro não está no livro em si, mas em um comentário que li em algum site por aí: alguém descreve o livro como "o pornô das mamães". Eu fiquei com a pulga atrás da orelha com a expressão claramente preconceituosa em relação às mulheres que optaram por construir uma família. É como se uma mãe não tivesse mais o instinto sensual e sexual que qualquer mulher saudável, em idade reprodutiva tem. Parece que parir é fato que irá, de vez, colocar a vida sexual na gaveta. Sabe-se que é difícil ter uma vida sexual ao estilo Grey/Steele com filhos em casa. Mas mesmo quem não tem criança em casa não anda transando toda hora, em todos os lugares, usando tantos apetrechos e tudo mais, por aí. Esse é outro ponto interessante que me levou a refletir ainda mais sobre o veneno implícito no comentário: o sexo comum, de todo dia, sem acessórios, brinquedos e fantasia, é menosprezado, como se só o sexo selvagem, cheio de incrementos fosse responsável por validar a satisfação sexual de uma mulher, principalmente se ela não é mãe. É interessante essa forma que boa parte da sociedade vê o "sexo baunilha", como algo que não satisfaz, enquanto que o sexo só é, de fato, fora de série, se tiver algum tipo de "estranhice", em algum nível... Interessante que no segundo livro da trilogia os protagonistas vem mostrar justamente o oposto disso: à medida que vão ficando íntimos e se apaixonando mais, a fantasia sado-masô vai deixando de ter espaço, e o Christian, que antes só conseguia fazer sexo na relação Dominador/Submissa, descobre um prazer muito maior no sexo comum, só pele, bocas e... química.
Acho que o/a jornalista que criou a expressão precisa repensar o mundo, as mães, as mulheres e a sexualidade feminina, independente de idade, estado civil, status familiar, etnia, classe social, nacionalidade, e tudo o mais...
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Os primeiros tons de cinza
Há algum tempo, um amigo publicou um post no Facebook sobre uma crítica pra lá de elitista detonando a trilogia "Cinquenta tons de cinza". Eu, na época, sequer sabia do que se tratava. Depois de um tempo, vi que a revista Veja (argh!) publicou uma matéria de capa para falar do reboliço que esses livros têm provocado. Mais uma vez, eu estava no meu estado de ignorância a respeito do que se tem chamado de fenômeno. Foi aí que eu fiquei sabendo o que era... E não me interessei nem um pouquinho, pois sado-masoquismo nunca foi minha praia (parafraseando a tradução de Steele e Grey).
Aí, passado mais um tempinho, minha madrasta vem até mim, toda serelepe, com olhinhos agitados e acesos, me dizendo que eu "tinha" de ler. Eu falei para ela que não curtia essa coisa de sádico, etc e tal... Mas ela não se abateu.
Sábado, fui almoçar na casa do meu pai. Antes de ir embora, mais uma vez, vem minha madrasta, cheia de excitação, e com dois dos três livros na mão. Foi logo dizendo assim: "Olha, eu ainda não comprei o terceiro, mas já li os dois primeiros, e você tem de ler... Você vai amar!".
Resumo da ópera: Das 455 páginas do primeiro livro, já li pouco mais de 130. Sim, os relatos detalhados das relações dão uma quenturinha. Sim, é bonzinho de ler. Mas,só...
Voltando ao post de meu amigo no Facebook, alguém comentou que só mesmo uma fã de Stephanie Meyer para escrever melhor do que ela. Discordo. Meyer parece ter mais riqueza de vocabulário, embora isso possa ser também um problema da tradução. Além do mais, há momentos em que eu me sinto relendo "Crepúsculo". As semelhanças são muitas: a protagonista branquela, de cabelos castanhos, que não se sente segura e acha que o cara é a melhor coisa do mundo, e que ela é muito menos do que ele; o protagonista que parece um "deus" todo poderoso, que pode tudo, que consegue tudo, que é rico, que é lindo, etc; garçonetes que se incomodam por não serem notadas pelo "deus"; carros caros, velozes, chiquerérrimos, casas maravilhosas; ausência de problemas corriqueiros, como contas a pagar, médicos a serem marcados, etc e tal; frases que se repetem (tanto Edward Cullen quanto Christian Grey andam "franzindo o cenho" com uma certa frequência). Bem medido e bem pesado, parece que os tons de cinza de James são uma versão erótica de Bella e Edward. Convenhamos: um homem (sádico, diga-se de passagem) que consegue fazer uma virgem de 21 anos (que não conhece o próprio corpo) ter 2 orgasmos com penetração na primeira vez é tão irreal quanto um vampiro!
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Válvula de escape
Eu acho que é uma das funções mais primordiais dos amigos, ouvir e dar suporte aos seus. É por isso que quando algum amigo me liga ou quer conversar, eu ouço. É evidente que, com minha boca grande, faço meus comentários, tento aconselhar, consolar, dizer algo que ajude, que acalme, que conforte.
Apesar de pensar assim, eu não consigo ligar para meus amigos para pedir para conversar e desabafar. Sei lá o motivo... Acho que tenho medo de que não me entendam, que me julguem, de alguma forma, que façam críticas sobre a forma como eu me sinto. Pelo menos, isso já aconteceu antes, e eu passei a me recolher, quando estou mal.
Nesta semana, eu captei de uma pessoa que amo muito, muita informação negativa. ela tá cheia de problemas. Tá "encalacrada" até a alma... Problemas no trabalho, problemas na família, problemas financeiros... Eu escutei, tentei acalmá-la, dei todos os meus melhores conselhos... No final, ela rechaçou tudo. Eu não sei se foi porque nada do que eu disse sutiu efeito, ou se é porque a energia dela tava muito "dark", a verdade é que hoje eu queria ter com quem conversar. Eu queria poder desabafar. Contar tudo, gritar, esbravejar... Guardei pra mim, e tive uma crise de choro em meio ao engarrafamento das 8:00 horas da manhã.
Minha cabeça está doendo, agora. Uma sensação de impotência se instalou...
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Sujeitos assujeitados.... "Maria vai com as outras" ou o quê?
Existe algo, que eu nem sei definir, em Análise do Discurso, que diz, mais ou menos, que tudo o que pensamos ser nosso texto, nossa opinião, nossas ideias, na verdade, não são. Nem sei se isso é um conceito ou um fundamento. O que sei é que somos "assujeitados" porque somos levados a adotar ideias, ideologias e conceitos dos outros... Isso me fez pensar que somos altamente influenciados pelas palavras alheias. Criamos conceitos, adotamos padrões, muitas vezes sem conhecer. E por que estou trazendo isso hoje pra cá? Bem, eu fui, pela primeira vez à cidade de São Paulo há duas semanas. E foi uma surpresa!!!!
Em primeiro lugar, não fui como turista. Estava concentrada em ir só para ver o show da minha banda favorita (Dream Theater). Minhas expectativas eram duas: aproveitar o show ao máximo e não esperar nada da cidade... A culpa é de Caetano!!!! Culpa de frases como "Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto" e "Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"! Mesmo depois de analisar e verificar que de tantos avessos, chega-se no "direito", eu tinha a impressão de que São Paulo era uma cidade pra lá de horrorosa. E fui pra lá acreditando que ia ver o que costumamos chamar de "ó do borogodó"! Muita gente ratificou essa imagem, com depoimentos sobre suas experiências em Sampa... E eu, que cheguei com os olhos cautelosos do que poderia ver, me deslumbrei com a selva de pedra... Passando por baixo de um viaduto, de onde meu marido apontava para algum lugar que não consegui identificar, me encantei com o céu azul, as flores colorindo o espaço misto de arquitetura antiga e prédios modernosos. Meu marido apontava: " Ali em cima é a Paulista. Tá vendo aquilo ali, vermelho? É o MASP"... Não consegui ver, porque tudo era muito melhor do que eu havia imaginado. Arcos, vidros, concreto, céu de brigadeiro, flores de cores intensas... verde! Tudo junto, desmentindo o avesso do avesso. E a temperatura de 17°C inundou minha alma... eu não queria mais sair dali... Se não fossem meus filhos me esperando aqui, talvez nem tivesse voltado. Convenceria meu esposo a ficar por lá mesmo, clandestinos.
É certo que não vi a cidade toda, não conheci o furdunço diário... Mas andei pelos lugares que fui, não como turista, mas como alguém que sabia onde estava. Andei de trem, andei de metrô... Depois de algumas estações, já me sentia em casa.
Tive medo de ser mal-tratada, porque outra coisa que costumam falar sobre São Paulo é que os paulistas não gostam de nordestinos... Fui esperando que algo assim acontecesse. Tirando um chinês estressado numa lojinha da Liberdade (antes de terminarmos de perguntar quanto custava um produto, ele já vinha dizendo que era 38!!!!), e uma galera que me olhou feio na Galeria do Rock, devido à minha busca por algum produto da franquia Glee (pra minha filha de 12 anos!), acho que fui tratada normalmente em todos os lugares onde estive.
Amei São Paulo! Alguma coisa acontece no meu coração...
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Dream Theater mood
As coisas estão mudando. Não dá para avaliar ainda se as mudanças estão tendendo para o bem ou para o mal. Acho que nunca é para o mal, se você não pretende fazer mal a alguém. Sinto-me, porém, fazendo mal a mim mesma, me contorcendo comigo na incerteza, na indecisão, na dúvida, na angústia.
Acho que eu já desisti dessa coisa toda de gastronomia. Meu marido costuma dizer que eu nem tentei. Sim, é verdade. Eu, de fato, nunca trabalhei em nenhum restaurante. Fiz um evento aqui e ali. Tive medo de assumir outros maiores e para pessoas que não conhecia. Desisti sem tentar. Talvez eu esteja arranjando desculpas para esconder meu medo de tentar e falhar. Mas ao mesmo tempo, é verdadeiro o meu desejo de poder estar perto dos meus filhos enquanto eles crescem. E não é novidade que aquele que trabalha com comida, via de regra, não tem fim de semana, feriado nem dia santo. Muitos dos meus instrutores do SENAC não passam o Natal e Reveillon com suas famílias, pois estão no restaurante, servindo. Por mais que eu ame comida, cozinhar e servir, não há dúvida de que amo muito mais meus filhos, seus sorrisos e a alegria que demonstram em estar comigo. Não quero perder isso! Não quero perder a adolescência de minha boneca. Não quero estar longe nos momentos de desilusão, nas angústias. Não quero perder nada! Não quero deixar de ver meu moleque crescer,aprender a andar de bicicleta sem rodinha, jogar algum esporte novo, se apaixonar pela primeira vez. Eu quero estar presente!
Tem gente que diz que é possível, mas eu não acredito.
Bem, de qualquer forma, estou desistindo, sentindo um certo alívio em desistir. E a desistência vem com uma nova proposta, uma nova tentativa, para continuar exatamente onde estou. Estou me agarrando, com muito medo, na minha velha e conhecida profissão de professora. Estou morrendo de medo de voltar para a sala de aula! Mas é o que eu já conheço. Se de alguma forma é novo, também não é tão estranho assim!
E assim, eu estou murcha, estou me sentindo péssima comigo mesma, porque sou covarde para tentar. Sou medrosa o suficiente para abrir mão de tentar algo que pode ser um sonho. Só que eu nem tenho mais certeza disso. Então, com a convicção minada, abro mão de sonhar. Boto meus pés no chão, me agarro à velha tábua de salvação, adio planos. Um dia, quem sabe, eu não me liberto de mim mesma e tento de verdade?
Trilha de hoje: Wither, do Dream Theater. A letra fala por si só...
But I feel I'm getting nowhere /
And I'll never see the end /
So I wither /
And render myself helpless /
I give in /
And everything is clear /
I breakdown /
And let the story guide me /
/
I drown in the hesitation /
My words come crashing down /
And all my best creations /
Burn into the ground /
The thought of starting over /
Leaves me paralyzed /
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Life's true intend needs patience
Vem em ondas, ora brandas, quase afagando minhas pernas, ora tsunamis destruidoras. Essa dúvida constante não passa. De tanto estar presente, parece que eu me tornei ela. Viramos algo uno. Eu sou a personificação do "não sei". Eu simplesmente não sei o que vou fazer da minha vida. Há 18 anos atrás eu não sabia responder. Passaram-se quase duas décadas, e a pergunta continua sem resposta. O que você vai ser quando crescer?
Eu não sei. Nunca soube. Continuo no escuro. Quis ser tantas coisas, mas todas pela razão errada. Agora eu busco encontrar essa verdade. O que eu quero ser, pela razão certa. E tentando encontrar uma resposta, uma enxurrada de novas perguntas desabam em mim: Existe alguma verdade? É um fato que todas as pessoas saibam, no fundo de suas almas, o que querem fazer da vida? Será que querer e dever podem andar de mãos dadas? E se o que eu quero for impossível, simplesmente porque me falta talento? Eu tenho competências para fazer o que quero? Eu tenho coragem? Será que eu realmente quero isso? Por que parece que o que eu queria há três anos já não me apetece mais? Algum dia eu vou descobri o que vim fazer nesse mundo?
Labirintos... névoas... eu mesma me persigo... E me escapo.
A verdade me escapa. E meu ídolo, Myung, me diz que é preciso paciência para entender a verdadeira razão da vida.
"Sometimes all I want to do is wait"....
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Eu não me lembro...
Da última vez que estive aqui, eu falei de um relacionamento antigo, de quase 20 anos atrás, que me marcou muito. Minha mãe costuma me falar sobre como eu reajo ao mencionar essa história. Ela disse que eu preciso soltar a mágoa que ficou e dar lugar às lembranças boas.
Reolvi trabalhar melhor isso, porque essa é a maior mágoa que ainda carrego em mim. Nem mesmo o fato de ter sofrido abusos na infância me machucam tanto quanto me lembrar daqueles 17 meses de namoro. É óbvio que foi preciso muito tempo de terapia para que os abusos não me machucassem mais. Creio até que já perdoei "os abusadores". Mas essa história... É tudo muito esquisito, porque quando paro para pensar na razão disso, sequer consigo identificar. Se me pergunto se gostaria de tê-lo na minha vida ainda, a resposta é imediata. Um "não" imenso ecoa na minha mente. Sinto que não seríamos felizes juntos nem se quiséssemos tentar novamente. E sinto que eu não o quero por perto. Mas ainda persiste um gosto amargo de rejeição. Ainda me vejo perguntar o porquê de tudo ter se acabado. Frases ditas, cenas rápidas de um romance que acabou. A eterna dúvida se, por parte dele, houve de fato algum sentimento. Eu só queria saber. Parece que ficou uma lacuna enorme. Talvez ela um dia se preencha com a onisciência de quem morre e pode ver o passado novamente e o futuro, ligando todas as pontas.
A verdade é que eu não me lembro. Não me lembro de nós dois. Não sei como éramos. Não sei se ele foi feliz ao meu lado, ainda que por pouco tempo, antes de eu me tornar doentia. Não me lembro de grandes gargalhadas. Só lembro daquela arritmia que se sente quando o chão falta aos seus pés. Eu me sentia assim diante dele. Eu sentia que meu coração não queria ficar em mim... Era como se meu coração quisesse fugir do meu peito e ir para as mãos dele. Isso doía tanto, porque naqueles meses, eu não era o suficiente para mim mesma. Ele ia embora, meu coração morria. E eu me matava um pouco a cada dia.
Será que a mágoa se baseia em como eu vejo que não era amor, mas sim uma doença? Será que essa mágoa é apenas minha auto-crítica, condenando minhas atitudes, me repreendendo por não ter sido mais raçuda, mais eu, mais independente? O que será que provocou isso? Questiono-me se isso não foi o resgate de algum karma, tão antigo quanto a própria história de todos os amores do mundo.
Agora, com quase 34 anos, me parece tão injusto que eu tenha sentido algo tão violento sozinha. Eu realmente gostaria de saber se houve alguma sinceridade quando ele dizia "Eu te amo". Ele dizia muito, olhando nos meus olhos. Ele via uma espécie de mancha azul, como uma linha, na parte inferior da minha íris cor de mel. Meu marido, no entanto, que é a pessoa que sei que mais me amou nesta vida, nunca a viu. As perguntas jorram E a angústia de não sabê-las responder faz de tudo o que passou uma névoa negra sobre uma época em que eu deveria ter sido imensamente feliz. E no fim, eu não me lembro... eu não me lembro de como éramos, como fomos... Eu não me lembro de ter sido feliz ao lado dele, e ainda assim, naquela época, eu não queria viver sem ele. Preciso me perdoar por isso.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Exorcisando demônios
Autoanalisar-se é um exercício doloroso... é preciso coragem para fazê-lo, porque não há ninguém para mediar o processo ou dar uma outra perspectiva dos fatos, dos sentimentos, das ações. Eu não sou psicóloga, portanto, essa seção é absolutamente intuitiva e confessional. Não acredito que eu vá chegar a alguma conclusão ao fim do desabafo.
Eu estou trabalhando arduamente para construir minha autoestima. Falo em construir porque tenho a sensação de que, nesta vida, ela nunca existiu. Talvez, na infância, quando isso é apenas uma semente que trazemos, ela tenha sido espisoteada e não tenha germinado. Talvez eu nunca venha a saber o que realmente ocorreu. Então decidi que tenho que trabalhar este momento, o "agora".
Revirando o baú da memória, resgatando momentos em que minha autoestima pareceu a chegar a um nível abaixo de zero, revi o meu relacionamento mais intenso, a paixão mais avassaladora que vivi. Ao contrário de outras paixões passadas, essa não deixou a sensação de carinho pela pessoa ou pela relação em si. Só pude identificar as dores daquela época e como o que parecia o maior amor do mundo passou a ser uma mágoa de peso colossal na minha alma. Aos poucos tenho processado isso, porque se eu guardar por mais tempo, vou acabar desenvolvendo um câncer. Antes de contar a história, é preciso deixar claro que não há mais nenhuma paixão pela pessoa. Eu não consigo imaginar minha vida ao lado dele porque somos como óleo e água. Embora na época parecesse que tudo se casava, hoje eu vejo que sofri mais do que fui feliz, porque ele não era quem eu queria que fosse.
Eu devo ter sido um pesadelo na vida dele: insegura demais, controladora demais, dependente demais. Sim, eu tive uma boa parcela de culpa pelo fracasso da relação. Eu tinha expectativas que iam além da realidade. Eu queria o conto de fadas, a fantasia de que uma paixão com aquela força fosse correspondida na mesma proporção e, mais ilusão ainda, que durasse para sempre. Mas ele parecia me escapar. Como eu só queria estar com ele e mais ninguém, eu queria que ele desejasse o mesmo. Os amigos, os jogos de RPG, os shows de rock... sem mim... tudo era motivo de eu começar a enlouquecer achando que ele não voltaria mais, que ele não telefonaria mais. Sim, eu fui a pior namorada do mundo!
Tenho certeza de que isso é um dos motivos de toda essa mágoa. Eu me anulei por completo porque parecia que era melhor estar sofrendo naquele relacionamento do que ficar sem ele. Eu me rebaixei, deixei que ele me humilhasse, que ele me manipulasse, que me machucasse porque ele sabia que eu aceitaria qualquer condição para estar com ele. Lembrar desse relacionamento é o mesmo que sentir raiva de mim mesma por ter permitido tudo isso, por ter sido tão passiva e não ter me dado nenhum valor. Consigo ver claramente eu me envergonhando pelas minhas origens, pela minha bagagem cultural que ele tanto menosprezava por ser filho de inglês e ter nacionalidade inglesa. Lembro que mesmo quando brigávamos, e eu ficava super magoada com a frieza com que ele me tratava, eu não conseguia dizer "Vá embora, me deixe em paz! Eu não quero falar com você!". Eu me fiz ser "um nada" porque achava que ele era tudo de bom que poderia acontecer na minha vida.
Eu não sei quando vou me perdoar por ter deixado tudo acontecer como aconteceu. Eu não sei se vou conseguir, um dia, perdoar esse cara que se aproveitou das minhas inseguranças, da minha própria infantilidade, afinal, eu tinha 15 anos. Mas agora, a lama de toda essa história está em minhas mãos, e eu quero limpá-la.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Em busca dos "insólitos" perdidos
Quando eu estava no segundo semestre do curso de Letras, eu fiz uma disciplina chamada Teoria da Literatura I. Embora fosse "I", não era a primeira Teoria da Literatura. Mas foi a primeira e única disciplina em que precisei fazer prova final. As poucas coisas de que me lembro sobre essa disciplina são essas: nela, trataríamos de prosa, deveríamos fazer uma pesquisa sobre Paul Valèrie - que por não ter sido feita me rendeu a tal prova final - e a palavra "insólito". Tivemos aulas e mais aulas sobre esse tal insólito. É óbvio que a primeira coisa que fiz, diante do palavrão, foi ir ao dicionário saber do que se tratava. E era mais ou menos o que eu tinha imaginado. Na minha humilde mente, de forma simplista e simplória, insólito é aquilo que é inusitado, aquilo que quebra com algumas expectativas óbvias. Antes, entretanto, fiquei na aula, fazendo cara de inteligente, tentando fingir que tudo aquilo estava muito íntimo das minhas concepções e de meus conceitos. Ao longo da disciplina, senti que ele é mesmo muito importante para a literatura. Mais! Parece que ele é muito importante para o toda e qualquer arte e, é evidente, para toda a intelectualidade.
Tempos depois, percebi que o insólito me traumatizou de tal forma que passou a ser "A arca da Aliança" da minha vida. Há poucos dias, percebi que as pessoas, e eu estou no balaio, buscam valorizar as "insoliticidades" de suas vidas. É óbvio que isso interfere no que eu escolho fazer, em quem escolho ser, em como vou me portar. Por que, simplesmente, não podemos ser apenas óbvios, comuns e mediocres? Vivemos como se quiséssemos que nossas vidas fossem filmes-cabeça, daqueles de Ingmar Bergman, que só são exibidos nas salas de Artes. Cada momento estranho ou bizarro é um quadro novo a ser pintado. Nosso caminhar ganha trilha sonora. O dia a dia gera a sonoplastia típica do cinema nacional, de carros, buzinas e talheres tinindo nos pratos. Como nos filmes-cabeça, os insólitos nascem e se vão em detalhes mínimos, em instantes de insights relampejantes que não provocam finais hollywodianos.
Ninguém nunca me confessou querer viver uma vida de cinema ou de romance. Mas se eu vejo que os dilemas e angústias são os mesmos, porque a forma de projetar isso não seria? Enfim, estamos todos buscando tudo aquilo que nos tire do lugar comum. O curioso é que a busca gera o efeito contrário, na maioria dos casos.
Seria tão mais fácil se o insólito ficasse encapsulado somente na arte.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
O que as pessoas querem do Facebook?
Hoje eu vi duas coisas no Facebook que me levaram a mais uma seção de filosofia barata só para passar o tempo num engarrafamento.
Primeiro, li uma suposta matéria na qual se dizia, muito genericamente, que o criador da rede, Mark Zuckerberg, não estava satisfeito com a qualidade da participação dos brasileiros. Segundo a matéria, por um lado, o cara estava feliz por haver tanta gente no Brasil utilizando a rede social, mas, por outro lado, cada vez mais os brasileiros estavam "orkutizando" (não é que inventaram isso?!)o Facebook, com essas postagens com mensagens de autoajuda, textos de teor religioso-catequisatório, etc e tal. Na matéria, havia até a informação de que o Mark, junto com sua equipe, estaria elaborando um manual de comportamento para que o público brasileiro não estrague o Facebook.
Aí, logo em seguida, eu vi a atualização de status de uma amiga, em que ela falava que o Facebook deveria se chamar "Egobook".Havia alguns muitos comentários concordando com ela e escrachando aqueles que usam não só o FAcebook mas também o Twitter, para ficar informando coisas bobas sobre si mesmas. Houve um comentário que satirizava aquelas outras pessoas que vão atualizando seus status, falando que comeram tal coisa, que foram ao banheiro, que fizeram isso ou aquilo.
Bem, minha primeira reação, como boa pessoa insegura que sou, foi pensar: "Eu me encaixo nesse perfil?" É claro que deveria ter pensado logo em seguida: "Que se foda se eu me encaixar nesse perfil! E daí?" Mas não foi isso que passou na minha cabeça. Eu comecei a pensar na utilidade do site e quais as expectativas de quem o está usando. Particularmente, uso o Facebook para estar em contato com as pessoas que conheço, já que a vida que tenho, atualmente, e até mesmo minha natureza de eremita, me impedem de sair e encontrá-los frequentemente. Através dele, fico sabendo do que se passa na vida dessas pessoas, ou pelo menos sobre o que pensam, sem precisar ligar e perguntar. Às vezes, tento usar o site para saber da opinião dessas pessoas sobre algum assunto ou mesmo para perguntar coisas (como no dia em que estava estudando para a prova de Enologia, Drinks e Aperitivos). Neste último caso, raramente obtenho resposta. Vejo um bocado de coisa chata, como aquelas mensagens religiosas que me irritam e, principalmente, as chacotas contra os times de futebol que perderam alguma coisa, independente de qual time foi (ODEEEEEEIO FUTEBOL). Quando topo com algo assim, passo reto, desço direto para a próxima atualização. Vejo algumas besteiras que me fazem rir, assisto a alguns vídeos que me pareçam interessantes...Também acabo sabendo mais sobre a vida da minha filha do que ela está disposta a me contar. Enfim. Para que mais serviria? Os convites para participar de jogos e aplicativos, ignoro por completo... Nem me abalo em tentar ver como funcionam. Aplicativos, só meus dois joguinhos favoritos: Mahjong e Bubbles.
Entretanto, o que percebo por parte de muitos amigos e ex-colegas de faculdade é uma constante pressão para que sejamos sempre eternamente altamente intelectualizados. Sempre vejo que algumas pessoas postam críticas sobre o que está acontecendo na TV ou sobre alguma polêmica que está rolando por aí. E aí eu me questiono: muitas dessas pessoas levantam bandeira em defesa de causas de igualdade social, discriminalização disso e daquilo (causas que eu também defendo), mas na hora de lidar com a diversidade do uso do Facebook, o discurso empena. Acham um besteirol que alguém fale sobre o que fez ou vai fazer; são extremamente intolerantes quando contrariados em suas opiniões. Se o que anda aparecendo na página principal é um desfile de coisas que não vão enriquecer o dia do intelectual, exclua a postagem. Peça para aquela história não aparecer. Se a pessoa responsável pela tal postagem é recorrente, é só bloqueá-la ou mesmo excluí-la. Se a tal pessoa não é inteligente o suficiente para que possa figurar então na página de atualizações de um intelectual, porque essa pessoa está na sua lista de amigos?
Talvez eu seja suspeita para falar, afinal, fugi da vida acadêmica, não aguentando a pressão de ser intelectual. Uma vez, meu marido e eu estávamos discutindo sobre isso. Ele faz parte do perfil que acha que as discussões e postagens no Facebook deveriam estar num nível mais elevado. Eu retruquei que se eu quisesse ficar filosofando numa rede social, teria escolhido continuar com minha vida acadêmica e fazer o doutorado. E se a intenção dessas pessoas é que haja um espaço público para debates de alto nível, seria melhor que as redes sociais passassem a ser temáticas ou com finalidades específicas, como ocorre com a tal da Linkdin (acho que é assim que se escreve). Infelizmente, a pressão para ser intelectual e inteligente, e parecer super cool falando sobre o assunto polêmico do momento é um "pouco demais" para mim, que estou em busca de leveza. Mas, como eu não quero ser como os intelectuais radicais do Facebook, que passam a ter um discurso discriminatório, acho ótimo que eles estejam lá para trazer sempre uma polêmica diferente, que não vai mudar a vida de ninguém.
Primeiro, li uma suposta matéria na qual se dizia, muito genericamente, que o criador da rede, Mark Zuckerberg, não estava satisfeito com a qualidade da participação dos brasileiros. Segundo a matéria, por um lado, o cara estava feliz por haver tanta gente no Brasil utilizando a rede social, mas, por outro lado, cada vez mais os brasileiros estavam "orkutizando" (não é que inventaram isso?!)o Facebook, com essas postagens com mensagens de autoajuda, textos de teor religioso-catequisatório, etc e tal. Na matéria, havia até a informação de que o Mark, junto com sua equipe, estaria elaborando um manual de comportamento para que o público brasileiro não estrague o Facebook.
Aí, logo em seguida, eu vi a atualização de status de uma amiga, em que ela falava que o Facebook deveria se chamar "Egobook".Havia alguns muitos comentários concordando com ela e escrachando aqueles que usam não só o FAcebook mas também o Twitter, para ficar informando coisas bobas sobre si mesmas. Houve um comentário que satirizava aquelas outras pessoas que vão atualizando seus status, falando que comeram tal coisa, que foram ao banheiro, que fizeram isso ou aquilo.
Bem, minha primeira reação, como boa pessoa insegura que sou, foi pensar: "Eu me encaixo nesse perfil?" É claro que deveria ter pensado logo em seguida: "Que se foda se eu me encaixar nesse perfil! E daí?" Mas não foi isso que passou na minha cabeça. Eu comecei a pensar na utilidade do site e quais as expectativas de quem o está usando. Particularmente, uso o Facebook para estar em contato com as pessoas que conheço, já que a vida que tenho, atualmente, e até mesmo minha natureza de eremita, me impedem de sair e encontrá-los frequentemente. Através dele, fico sabendo do que se passa na vida dessas pessoas, ou pelo menos sobre o que pensam, sem precisar ligar e perguntar. Às vezes, tento usar o site para saber da opinião dessas pessoas sobre algum assunto ou mesmo para perguntar coisas (como no dia em que estava estudando para a prova de Enologia, Drinks e Aperitivos). Neste último caso, raramente obtenho resposta. Vejo um bocado de coisa chata, como aquelas mensagens religiosas que me irritam e, principalmente, as chacotas contra os times de futebol que perderam alguma coisa, independente de qual time foi (ODEEEEEEIO FUTEBOL). Quando topo com algo assim, passo reto, desço direto para a próxima atualização. Vejo algumas besteiras que me fazem rir, assisto a alguns vídeos que me pareçam interessantes...Também acabo sabendo mais sobre a vida da minha filha do que ela está disposta a me contar. Enfim. Para que mais serviria? Os convites para participar de jogos e aplicativos, ignoro por completo... Nem me abalo em tentar ver como funcionam. Aplicativos, só meus dois joguinhos favoritos: Mahjong e Bubbles.
Entretanto, o que percebo por parte de muitos amigos e ex-colegas de faculdade é uma constante pressão para que sejamos sempre eternamente altamente intelectualizados. Sempre vejo que algumas pessoas postam críticas sobre o que está acontecendo na TV ou sobre alguma polêmica que está rolando por aí. E aí eu me questiono: muitas dessas pessoas levantam bandeira em defesa de causas de igualdade social, discriminalização disso e daquilo (causas que eu também defendo), mas na hora de lidar com a diversidade do uso do Facebook, o discurso empena. Acham um besteirol que alguém fale sobre o que fez ou vai fazer; são extremamente intolerantes quando contrariados em suas opiniões. Se o que anda aparecendo na página principal é um desfile de coisas que não vão enriquecer o dia do intelectual, exclua a postagem. Peça para aquela história não aparecer. Se a pessoa responsável pela tal postagem é recorrente, é só bloqueá-la ou mesmo excluí-la. Se a tal pessoa não é inteligente o suficiente para que possa figurar então na página de atualizações de um intelectual, porque essa pessoa está na sua lista de amigos?
Talvez eu seja suspeita para falar, afinal, fugi da vida acadêmica, não aguentando a pressão de ser intelectual. Uma vez, meu marido e eu estávamos discutindo sobre isso. Ele faz parte do perfil que acha que as discussões e postagens no Facebook deveriam estar num nível mais elevado. Eu retruquei que se eu quisesse ficar filosofando numa rede social, teria escolhido continuar com minha vida acadêmica e fazer o doutorado. E se a intenção dessas pessoas é que haja um espaço público para debates de alto nível, seria melhor que as redes sociais passassem a ser temáticas ou com finalidades específicas, como ocorre com a tal da Linkdin (acho que é assim que se escreve). Infelizmente, a pressão para ser intelectual e inteligente, e parecer super cool falando sobre o assunto polêmico do momento é um "pouco demais" para mim, que estou em busca de leveza. Mas, como eu não quero ser como os intelectuais radicais do Facebook, que passam a ter um discurso discriminatório, acho ótimo que eles estejam lá para trazer sempre uma polêmica diferente, que não vai mudar a vida de ninguém.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Mais do mesmo
Eu já mencionei o meu atual emprego. E agora ele nem me incomoda mais como costumava me incomodar. Antigamente, eu me indignava com tudo o que acontecia nele. Eu achava que as únicas coisas pelas quais valia a pena estar ali eram os fatos de que eu tinha colegas maravilhosos e de que não tinha de lidar diretamente com os alunos, além de poder cumprir com meus compromissos financeiros. Isso não mudou, mas toda a parte negativa deixou de ser uma muralha que me impedia a vista de paisagens. Hoje eu me sinto como uma enfermeira cuidando de um doente terminal.
Quando cheguei aqui, isso era algo pequeno, ocupava apenas três ou quatro andares de um prédio de 11 andares. Já fazem quase 6 anos. Nos anos seguintes, a coisa cresceu. Dos 11 andares do prédio, apenas dois não eram "nossos". Só de andares destinados aos professores, para que elaborássemos nossas aulas e materiais de trabalho, havia quatro. Chegou ao ponto de que não era possível encontrar computadores e cadeiras suficientes nesses quatro andares para que pudéssemos trabalhar. De segunda a sexta, manhã, tarde ou noite, a qualquer momento em que se chegasse aos andares, estavam lotados.
Começamos com três estúdios de transmissão via satélite. Logo, três viraram seis, que, em seguida, chegaram a nove. Setores e mais setores eram criados para coordenar tamanho empreendimento educacional. Houve um momento em que nem os 9 andares eram suficientes, salas e mais salas foram alugadas em outros prédios do mesmo bairro. Era uma coisa "mega". E foi tão rápido e tão grande, ou tão grande e tão rápido, que começou a ruir.
Hoje eu não sei onde o fim começou. Talvez, ele estivesse esperando, desde o começo, como um organismo vivo, que nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. Só que muito depressa , levando muitas outras vidas para caminhos diferentes.
Hoje não há mais nenhuma sala fora do prédio. Dos nove andares de antes, só tenho certeza de que restam cinco. A qualquer momento em que se chegue em um dos dois andares reservados aos professores, é possível encontrar computadores e cadeiras disponíveis. Raramente fico na sala dos professores, como costumo chamar o andar em que trabalho, com mais de cinco colegas, professores de diversos cursos. Parece que tudo está mesmo morrendo. Os meus colegas mais queridos não estão mais aqui. Hoje estão trabalhando em lugares muito melhores. Com certeza estão mais felizes do que antes. Eu estou aqui, esperando o fim, tal qual a enfermeira que assiste um moribundo. O muro que antes me impedia de ver o mundo adiante, agora, é uma cerquinha a ser derrubada com um único pontapé. Diante dela, eu espero.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
A morte e eu
Eu ainda estou de luto. Meu tio faleceu no dia 30/12/2011, em consequência de um câncer. Fiquei sem saber o que escrever, o que dizer, não só aqui no meu confessrionário, como para mim mesma... Eu acho que senti um certo alívio com a partida dele, porque eu sei que ele estava sofrendo muito. Enfim, ele descansou.
Era um homem bom. Trabalhador, honesto, excelente pai, carinhoso com todos que o cercavam, parentes ou não. Sabe aquele tipo de homem que tem uma voz mansa? Que te dá uma sensação de que voce pode confiar nele? Esse era meu tio Edson. Não se via ele metido em brigas, discussões. Tinha seus hábitos, suas manias, como quando resolvia cozinhar... Normalmente, num sábado ou domingo em que fosse para a cozinha, bebia conhaque, pinga... E o cardápio não era mais leve do que as bebidas: feijoada, rabada, sarapatel.
Enfim, ele se foi. Eu fiquei impressionada com isso, com o fato de que não estamos livres de termos um ente querido arrancado de nosso convívio por causa de uma doença, de um acidente, de uma fatalidade. E nenhum conhecimento sobre religiões que eu tenha me acalma o espírito quando eu penso no fato inexorável de que um dia todos morreremos. Talvez eu não tenha tanto medo de morrer quanto tenho pavor de perder aqueles que amo. Enquanto sigo tentando me tornar uma pessoa mais conformada com o ciclo natural da vida, meus sonhos com água continuam, indo e vindo... Para mim, água é morte... Sempre que tenhos esses sonhos com água, alguma menção à morte se faz... Acordo com o coração a saltar pelo peito, como se quisesse fugir de mim. É estranho, eu sei... Mas é um dado que não posso ignorar. Quando fazia terapia, contei à psicóloga sobre esses pesadelos. São pesadelos com lugares inundados, como num mundo pós-apocalíptico... Eu sempre preciso ir a algum lugar, mas tudo está cercado de água. Ela me perguntou se eu sabia como tinha sido a gravidez de minha mãe, quando eu estava na sua barriga... Não pude esconder que sabia que minha mãe pensou em aborto ao descobrir que estava grávida de mim. Ela, minha psicóloga, então me disse que meus sonhos estavam ligados a esse risco de ter morrido ainda na barriga de minha mãe, dentro da água.
Meus últimos sonhos com morte e água tiveram até tsunami... Acordo chorando... Tenho pavor. E mesmo sabendo que não posso mais ser abortada, a água ainda é um elemento ameaçador para mim. A morte, essa sombra, prefiro não pensar nela.
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